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Esquisitices

 em Notarial

Mais um debate apaixonado no CartórioBR. Na segunda-feira, o tabelião abre o cartório com nova orientação: certidões imobiliárias somente sob quesitos. "Registrador vai trabalhar, ah vai…"

Ordem dada, sai Dudão, o motoqueiro, com os quesitos. No balcão registral, não tem moleza. Apesar de estar lá todos os dias requisitando certidões para produzir escrituras que, afinal, voltam para o registro, Dudão pega a senha, senta e aguarda enquanto a chata maquininha vai produzindo os sons que chamam a fila. Chegada a sua vez, Dudão esclarece:

– Oi, hoje o patrão quer uma coisa nova, você vai estranhar.

O auxiliar do registro, nem oi, nem bolas. O motoqueiro saca os ofícios com os quesitos e lasca:

– O cartório agora quer certidões esquisitas.

A cabeça do atendente levanta rápida e um sorriso irônico sai natural.

– Isto não existe. Deixa eu ver esta carta.

Os papéis trocam de mãos. A leitura rápida recomeça para outra mais lenta, o nariz se mexe um pouco para o lado, um tique nervoso que adotara do escrevente Valdo, o chefe.

Sem dar satisfação para o motoqueiro, o atendente levanta, abre uma porta, caminha longo corredor até Valdo, que gostosamente lê os registros da vitória do Corinthians sobre os bambis no jornal do dia. Na manchete garrafal, “Ronaldo 3 x 0 Tricolor” e um subtítulo “Gol com a mão desequilibra”.

Sorrisão de satisfação. Hoje só dará ele.

Quando vê o atendente se aproximar, o sexto sentido de Valdo esmorece a sua felicidade. Vem chatice. Bore is in the air…

– O Valdo, aquele tabelião encrespado agora quer uma certidão por quesitos… ou esquisita. O quê que é isso?

Valdo sabe. Mas Valdo não merecia. Justo nesta manhã tão gloriosa com um dia inteiro de zoeira sobre os sãopaulinos!

A toda ação corresponde uma reação. "De igual ou maior proporção", completa Valdo no íntimo.

– Deixa que eu mesmo atendo.

Sai em direção ao longo corredor, o atendente o persegue, "mais uma que eu aprendo. Estou crescendo", imagina.

– Dudão – Valdo fala grosso -, este ofício aqui não pode ser.

– Por que, Doutor Valdo?

– Certidão por quesito só no nosso modelo.

Dudão não se acha. “Ora, doutor, sendo esquisita pode ser no seu modelo. Não tem qualquer problema.”

– É, mas tem outra coisa…

– !

– Você vai ter que levar o modelo que deve ser assinado pela parte do ato. E tem mais…

– !

– Se não for a parte que assina o cheque tem que preencher dois modelos, um assinado pela parte, outro pela pessoa que assina o cheque do pagamento.

Dudão não é bobo.

– Ih, doutor, mas aí vai complicar.

– Complica não. É só preencher estes campos em branco. O outro você copia.

– Mas é que as partes não estão lá no cartório. Assinaram a escritura na sexta. E até viajaram.

Dudão mente, mas sabe que precisa reagir. É a lei: a toda ação corresponde uma oração.

– Não tem jeito. E já vou te dizer mais: esta certidão não sai na hora não, nem no dia seguinte. São 5 dias úteis.

– !

Dudão é sãopaulino e não está num bom dia. Falta-lhe a gana da batalha.

– Certidão esquisita mesmo essa aí.

Valdo, começa a se virar; houvera um ippon, sem dúvida. Vai voltar para o jornal dos esportes. Poderá reler as entrevistas dos jogadores. O dia ainda se recupera.

Dudão inicia também a saída, resignado numa sensação… esquisita.

Súbito, vem-lhe a lembrança.

– O Valdo, você viu que esta certidão aí é para o Ronaldo, do Corinthians?

A cada ação corresponde uma reação. E uma oração.

O nariz de Valdo tem uns tremelicos. Nocaute.

 

Gary Baseman - The Garden of Unearthly Delights

Gary Baseman – The Garden of Unearthly Delights

 

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  • José Hildor Leal
    Responder

    O quesito é esquisito, mas se é requisito para a certidão, poxa, vá lá. Não deu nem pra respirar numa segunda profícua com esta, rica em debates na área notarial e de registros, lá no CartórioBR – a qualidade dos debates, pela capacidade dos debatedores, encantaram os quietos mas atentos leitores, e nada melhor, depois de um domingo trepidante (para o Ronaldo não, na dele, mãos na cintura, não muito na área, que é Flamengo desde pequenininho, que nem gremista).
    Parabéns aos craques desta outra área, nestes debates que aos poucos criam uma nova doutrina notarial e registral, pela leveza como é acariada a pelota em tais pelejas, e pelos gols de letra, das tão boas letras de Paulo Roberto e Jacomino, para ficar por aí, que não é pouco.

  • Marco Bortz
    Responder

    Bah… gaúcho, começaste a segunda feira inspirado…

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