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QUASE NÃO DÁ PRA ACREDITAR

 em Diversos

Era a decisão do campeonato de futebol de salão, e o jogo se dava na cancha de cimento, entre a praça e a igreja, onde é hoje o centro esportivo Arnaldo Beskow. Cerro Branco era o 7º Distrito de Cachoeira, mas não é verdade que ainda se escrevesse 7º Districto. Não sou tão velho.

Faltando mais ou menos cinco minutos para o encerramento, o placar era de dois golos a um a nosso favor, embora o domínio do adversário. A bola, teimosa, não entrava; batia na trave, rebatia no Amílcar, para alguns um grande goleiro, para outros um goleiro grande, numa perna, numa cabeça dura, numa mão boba, e não entrava.

O empate daria a taça ao outro time. Nossos torcedores rezavam nervosamente, enquanto a finada Mindoca, ainda viva, matava a sede com cachaça e gritava como a exorcizar o diabo do inimigo, a cada gole. Nem precisa dizer que ficou rouca.

Vendo a coisa feia para o nosso lado, o treinador pediu tempo, reuniu o grupo e elaborou o plano. Como a quadra era descoberta, cercada de tela até uns dois metros e meio de altura, era fácil que uma bola bem alçada sumisse na escuridão. Nos fundos, para os lados do rio, não havia iluminação. E não tinha bola reserva. No lugar, só quem vendia bolas, e inclusive pães, era a padaria, mas os padeiros estavam conosco, tanto que o Reinaldo era o técnico do time.

E assim se fez, apesar do voto contrário do Abreu, um devoto missionário que não admitia subterfúgios nem mesmo numa situa&ccccedil;ão de guerra, como aquela. Por acaso coube a mim a primeira chance de chutar a bola pros quintos; fechei os olhos e mandei bala.

Ouviu-se então estrondosa gritaria. O time inteiro pulou em minhas costas. Quase me mataram. Imaginei que a bola tivesse desaparecido. Depois fiquei sabendo que não, que o goleiro nem viu a cor da bola, que a bola entrou no ângulo feito um bólido. Que furou a rede. Que estufou a tela. Que foi um golaço!

Só então me dei conta do sucedido. E quando eu disse que a intenção não era marcar o gol, mas chutar a bola lá para onde o diabo perdeu as bolas, ninguém acreditou, menos o Abreu. O Abreu sempre acreditava.

Porém, por um desses azares de quem joga, na tentativa de afastar o perigo, rebati mal, de novo, e marquei gol contra, com o que voltou tudo à estaca zero, ou três a dois, a mesma coisa que os dois a um de antes.

Decidimos outra vez adotar a estratégia do jogo sujo, ou da bola pro mato que o jogo é de campeonato, com novo voto contrário do Abreu. A estas alturas não havia mais jogo. Era um bombardeio impiedoso contra a nossa meta, a ponto da Mindoca secar a garrafa antes do fim, contando com uma pequena ajuda do Maia.

Para piorar, um fato raro: o Ilceo, que nunca batia a cabeça, bateu a cabeça, tendo que ser substituído. O Piassini já havia entrado no lugar do Bruno, o Otávio no lugar do Pedro, o Antônio Costaneira no lugar do Nenê, todos lesionados, e além do Marci, para o gol, só sobrava o Abreu, logo o Abreu, um a menos para mandar a bola pros quintos. Mas não tinha outro jeito.

O crente entrou no jogo do jeito que o diabo gosta: infernal. Já no primeiro lance roubou uma bola ainda na defesa, avançou, driblou três ou quatro, ficou na cara do gol, fechou os olhos e mandou bala. Ouviu-se, outra vez, estrondosa gritaria.

Não. Não foi gol. A bola passou como um foguete por sobre o goleiro, por cima do pavilhão da igreja, além da casa da Dona Prenda, até matar um galo de rinha do Braatz, que dormia na laranjeira (o galo, evidentemente), e sumir na escuridão.

De imediato saiu a gurizada em busca da bola. Procura daqui, procura dali, e nada de achar a pelota. Vieram os adultos, e nem sinal da gorduchinha. Procura de lá, procura de cá, e nada de nada. Acenderam lanternas, isqueiros, fósforos, velas (não sei de onde aparece vela, numa hora dessas), e nada. O último recurso foram os automóveis. Nada, também.

Depois de meia hora o juiz encerrou o jogo.

Mais tarde, na festa da vitória, o Abreu tentava justificar. A intenção era fazer o gol, mas a bola pererecou e o chute saiu daquele jeito. Ninguém acreditava, todavia, além do próprio, que acreditava sempre.

Em Cerro Branco todos conhecem a história: os velhos, como testemunhas vivas, por enquanto; os jovens, de ouvir falar.

E se alguém não acreditar, que pergunte ao Abreu.

 

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  • ilceo
    Responder

    Eu não sou o Abreu, mas sou o Ilceo. Parecido na rima, mas diferente na crença. E se ele acreditava em tudo, eu, pelo contrário, duvido sempre. Mas esta história eu confirmo, pois estava junto. Tanto é verdade que aqui em Cerro Branco, local onde se passou o episódio, o Abreu passou a ser uma unanimidade. Herói municipal. O sujeito que decidiu um jogo com um chute pro mato. O cara que não jogava nada e foi carregado nos braços pela torcida no fim do jogo.
    Ah, que inveja do Abreu. Enquanto eu ainda hoje tento consertar a cabeça rachada, consequência da rispidez do jogo daquela noite, ele continua por aí, lépido e faceiro, despertando momentos lúdicos e até meio improváveis em nossa imaginação. E causando suspiros e muxoxos no sexo frágil.
    E até uma estátua o sujeito tem lá na Praça Central! Ou seria aquele busto uma homenagem ao Coronel Weber? Não lembro bem, mas o prezado notário, com a invejável memória que Deus lhe outorgou, poderia esclarecer. Quem lembra da Mindoca, da Prenda, do Maia, do Piassini, do Otávio, do Braatz e de tantos outros (especialmente do ABREU), certamente sabe a origem daquele busto todo cagado de passarinho lá no centro da praça.
    E, se sabe, esclarece.
    Ilceo

  • J. Hildor
    Responder

    O amigo Ilceo, uma dos artífices daquela estranha vitória (como capitão que era tem até hoje guardada a taça de campeão) esquece que não sou tão velho a ponto de lembrar do coronel, que sequer conheci – lembro do capitão, somente – mas não custa repetir: não sou do tempo em que se escrevia Districto. Com certeza não sou.

  • J. Hildor
    Responder

    Quase não dá pra acreditar, mas fiquei sabendo, agora a pouco, que hoje faleceu o Amílcar, grande goleiro, sim, daquele time campeão, além de grande pessoa, grande amigo.
    Uma lástima.

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