O FLORIANO DE CERRO BRANCO

 em Diversos

Ficaria para sempre esquecido o episódio da bomba do Pinheiro se não fosse o Ilceo ter feito uma gostosa crônica sobre o sucedido na Rússia da minha infância.

Esclareço que a Rússia de que trato não é a mesma da Perestroika. Ficava no Alto Cerro Branco, em solo gaúcho, onde pequeno demais para entender o real significado das palavras, muito ouvi falar naquele time do Floriano (homenagem ao velho Floriano de Novo Hamburgo), cujos adversários até podiam ganhar o jogo. A briga, nunca.

Como estava no auge o tema da Guerra Fria, ou o conflito político-ideológico entre Estados Unidos, defensores do capitalismo, e a Rússia (socialismo), e em razão das "peleias" dominicais, o lugar passou a ser chamado de Rússia.

Na 2ª-feira, na Escola Isolada Municipal nº 428, da Linha Negra, onde aos oito anos iniciei aprendizado, em tempos de tapapó, não se falava de outra coisa. Os colegas contavam as peripécias dos atletas: Alfredo, o goleiro, voava para pegar a bola; Pinheiro, um atacante completo, disparava uma bomba com qualquer pé, e que quase no fim do jogo não tinha tido jeito, o juiz era mesmo ladrão e a briga fora feia, até a chegada da polícia.

Na Rússia daquela época não havia luz elétrica, e muito menos televisão. Por isso minha imaginação de menino corria solta: o goleiro voava, mesmo, e a bomba do Pinheiro era um explosivo mortífero. Isso mexia comigo, que queria ver um jogo, e não ia, por medo.

Num domingo criei coragem!

Não lembro como foi que fui, mas fui. Quando dei-me conta estava atrás da tela, e por medida de maior segurança na linha lateral, fora da zona de tiros a gol. De repente espocaram os foguetes e saindo lá dos lados da “copa” vinham em debalada carreira os dois times, para o campo de luta.

O juiz apitou e começou o jogo. Correria, gritos, aplausos, vaias…

Tudo ia muito bem até que a bola foi para os lados do Pinheiro. Imediatamente lembrei da bomba e imaginei que se o chute saísse torto e viesse na minha direção, e ainda que eu estivesse atrás da cerca, poderia o artefato romper o aramado. Por isso, antes que a pelota tivesse chegado aos pés do atirador de bombas eu já corria no rumo de casa, sem voltar-me sequer para ver o desfecho do lance. Estando longe o suficiente, e sem fôlego, parei para respirar.

Anos depois, em tempos de pacificação, tornei-me um dos jogadores do time, tendo a felicidade de atuar ao lado de alguns daqueles corajosos batalhadores, inclusive do homem da bomba no pé, do goleiro voador e de outros, como Benivo, Letwino, Hona, Trombico, Pelé, Nico, Romeu, Irineu, “Pau Podre”, Chico Preto, Leoni, Munheiro, Traíra, Beno, Waldir, Edir, Rosimo, enfim tantos que nem caberia neste pequeno espaço nomear a todos, entre os que se foram para sempre e os que ainda estão por aí, de chuteiras praticamente penduradas.

Por pura vergonha do fiasco infantil eu nunca havia falado no caso, mas agora que foi revelado e tornado público o acontecimento acho que foi uma pena não lhes ter revelado sobre o meu medo de bombas.

Todos teriam dado boas gargalhadas, por certo.

 

 

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  • Ilceo Carlos Mergen
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    Já que sou o responsável pela divulgação da história do Floriano e da bomba, não me custa antecipar alguns detalhes, sobre outros “causos” que algum dia aparecerão, sobre aquele menino de oito anos, que acreditava em tudo, desde a bomba do Pinheiro até o goleiro voador, passando pelos alemãezinhos que “comiam” a bola, o ponta-esquerda que dava “janelas”, o centroavante que “incendiava” a torcida e tantos outros. Eu não esqueci não, e prometo que um dia ainda contarei na íntegra aquela história da menininha, também de oito anos, que insistia em ver o “pintinho” do futuro notário. Tanto insistiu que um dia conseguiu. Numa bela tarde de domingo, finalmente ele levou a formosa amiguinha até sua casa e para espanto da coleguinha, que ansiosa esperava ver finalmente concretizado seu almejado sonho, apontou para uma gaiola, onde um despreocupado sabiá cantava sem parar: – Aí está meu passarinho. Os demais detalhes deste drama infantil prometo que um dia contarei. Só o que posso antecipar é que depois daquele dia a bela menininha nunca mais quis falar com meu estimado amigo. Tão decepcionada ficou que até resolveu se mudar. A “Rússia” não era lugar para gente decente. Foi morar na Picada São Luís.

  • JOSÉ ANTONIO ORTEGA RUIZ
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    Olha, essa foi excelente. Eu num tô falando que temos que “tratar” um dia quem sabe, um dia, num desses encontros e reuniões, onde ao final possamos nos “reunir” mesmo, para colocar essas e outras em “pratos limpos”. E aqui vai “um chute”: – Não lembro como foi que fui, mas fui”. São essas as palavras utilizadas pelo Senhor não? Pois bem, EU SEI COMO O SENHOR FOI, e olha que nem estava lá (hahahahaha): o Senhor só pode ter ido de “CHEFROFARAEROFUSCA”, como? não sei só sei que foi assim (parodiando aquele seriado). Só mesmo o Senhor e os seus amigos para relembrar histórias pitorescas (verídicas). Um abraço do amigo José Antonio – Cá de Amaporã “(Mas é lugar para gente decente morar, viu Sr. Ilceu? (hahahaha”)

  • J. Hildor
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    Poxa, já tinham nos deixado há mais tempo, o Nico, o Leoni, o Letwimo, o Chico Preto, o “Pau Podre”, agora mais recentemente o Edir, e hoje o Pelé, fiquei agora sabendo.
    Está definitivamente se acabando o Floriano. Que tristeza!

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